
A história do flashback em Sorocaba
Dos clubes tradicionais à era das baladas
Sorocaba sempre teve uma relação especial com a música. Desde as antigas rádios AM que embalavam as tardes na cidade até os bailes que lotavam clubes e ginásios, a música sempre esteve presente no dia a dia do sorocabano. E quando falamos de flashback, essa história é ainda mais rica, atravessando gerações e deixando memórias que até hoje emocionam quem viveu cada momento.
🎧 OUÇA O FLASHBACK AGORAOs anos 70: a era de ouro dos clubes
Nas décadas de 70, 80 e 90, Sorocaba vivia a época de ouro dos clubes sociais. O Sorocaba Clube, fundado oficialmente em 9 de novembro de 1926, era um dos principais pontos de encontro da cidade. Localizado na Praça da Matriz (atual praça Coronel Fernando Prestes), o clube promovia bailes memoráveis que atraíam centenas de pessoas.
Ao lado, o Clube União Recreativo também fazia parte da paisagem noturna da cidade. Resultado da fusão de diversas agremiações, o União oferecia bailes sofisticados que reuniam a alta sociedade sorocabana. Em meados da década de 70, o clube ampliou suas atividades com a entrega de uma sede campestre no Jardim Guadalajara, levando a diversão para além do centro.
O Clube Estrada, antigo Estrada de Ferro Sorocabana Futebol Clube, fundado por ferroviários, mantém suas discotecas ativas até hoje na rua Álvaro Soares. Seu secretário, José Carlos Meloni de Campos, o Brasão, recorda: “Era chique e muito bacana ser sócio de clube”. Os associados contavam com piscinas, salas de jogos e campos de futebol, além, é claro, dos memoráveis bailes que atravessaram décadas.
A lista de eventos era extensa: Baile de Debutantes, Baile das Mães, Baile das Rosas, Baile da Primavera, Baile do Vermelho e Preto, Baile de Aleluia, Baile da Cidade, Baile de Formatura, Baile das Bolas e Baile do Havaí. Para quem gostava de “chacoalhar o esqueleto”, a cidade oferecia uma vasta programação musical de segunda a segunda.
“Era extensa a lista de bailes nas décadas de 70, 80 e 90, consideradas épocas de ouro dos clubes de Sorocaba.”
O fim dos anos 70: os primeiros DJs
No final dos anos 70, enquanto os clubes tradicionais ainda dominavam a cena, uma nova geração começava a se interessar pela magia dos toca-discos. Um dos nomes que marcou essa transição foi Sylvio “Dumato” Müller. Ainda em 1978, ele já se destacava atuando em várias pistas do interior, principalmente em Sorocaba, no Clube Scarpa, onde praticava esportes e passou boa parte da infância.
Atento às programações de rádio como Difusora, Mundial e Excelsior, que misturavam rock e soul, Dumato foi influenciado por grandes nomes como Frank Zappa, James Brown, Kraftwerk, Bob Marley, Pink Floyd e por toda a geração funk, soul, disco e rock. Foi ali, nas pistas de Sorocaba, que ele começou a construir uma carreira que mais tarde o levaria a se tornar um dos DJs mais respeitados do país.
Os anos 80: a explosão das discotecas
Os anos 80 trouxeram uma revolução na noite sorocabana. As discotecas ganharam força e um nome em especial se destacou: a Zarabatana. Foi lá que Sylvio Dumato, já residente da casa, foi descoberto por Tony Lovato, profissional consagrado do FM Disco Show. Lovato presenciou uma noite na Zarabatana e ficou tão impressionado que levou Dumato para São Paulo, onde ele conheceu Machado, DJ e empresário da noite paulistana.
Machado era o principal fornecedor de músicas para as principais rádios e casas noturnas do país. Com essa conexão, Dumato logo se mudou para a capital e rapidamente se estabeleceu entre os melhores profissionais do meio artístico e das gravadoras. Em 1984, foi convidado por Julio Mazzei para fazer mixagens ao vivo na Rádio Pool FM, emissora que reuniu grandes DJs no começo dos anos 80.
Mas a cena noturna de Sorocaba continuava pulsante. As discotecas da cidade atraíam jovens de todas as regiões, e os DJs locais começavam a ganhar destaque. O som era dominado pelo italo house, pelo synth-pop e pelos primeiros sucessos do que viria a ser chamado de flashback.
Os anos 90: a Factory Music e a era das baladas
Se existe um nome que marcou a noite sorocabana nos anos 90, esse nome é Factory Music. Até 2001, a balada era o principal nome da cena noturna da cidade e, inclusive, era frequentada por diversas celebridades brasileiras.
O fundador do local, Sérgio Guariglia, o Krika, conta que a boate surgiu de sua paixão por festas e música. Aos 12 anos, ele já fazia “bailinhos” de garagem e em aniversários de amigas. Com 18, começou profissionalmente como DJ e, logo, foi contratado para trabalhar em uma casa noturna.
Em 1992, Krika investiu na abertura de um lugar voltado para jovens e, assim, surgiu a Factory Music, localizada na Rua da Penha, no Centro. O nome veio de uma placa de “fábrica” em frente ao prédio que alugou. Um amigo, professor de inglês, sugeriu Factory Music — e assim ficou.
A Factory foi pioneira em muitos aspectos. O sistema de som e luz era à frente do tempo para a época. A casa foi a primeira da cidade a adotar o sistema de flyers para divulgação — hoje, esses flyers são itens para colecionadores e são vendidos a preços altos na Feira da Barganha. Até a vestimenta dos seguranças era marcante, a ponto de serem chamados de “Robocop da Factory”.
“Existe a noite sorocabana antes e depois da Factory. Foi pioneira em ter telões, um sistema de marketing diferenciado e, claro, muito respeito e cordialidade no atendimento.”
As domingueiras que marcaram geração
Um dos fenômenos mais marcantes dos anos 90 em Sorocaba foram as domingueiras da Factory Music. As matinês aos domingos atraíam adolescentes de toda a cidade. Karen Parada, jornalista e frequentadora da época, conta que dos 13 aos 17 anos, entre 1996 e 2000, a domingueira na Factory era sagrada.
Karen era promoter e distribuía no shopping e na escola os cartões que garantiam desconto na entrada. Com apenas 17 anos, ela apresentava um programa na extinta TV Metropolitana, onde entrevistou diversas celebridades que frequentavam a casa, incluindo Fernanda Paes Leme e Roger Gobeth.
“A Factory mudou a minha vida. É impossível lembrar dessa fase da minha vida sem sentir uma ponta de saudade. Foi um tempo leve, cheio de energia, de música alta e coração acelerado. Às vezes, tenho sonhos à noite como se eu estivesse lá, dançando com a ‘galera do passinho’.”
O som da Factory: italo house e flashback
O DJ César Barbosa foi um dos principais responsáveis por consolidar o nome da Factory Music. Amigo de Krika desde antes da abertura da casa, César começou na parte de som e iluminação e logo se tornou DJ e apresentador dos eventos. Ele relembra o repertório da época: “Naquele tempo, o ‘forte’ era o italo house. A gente gostava de tocar coisas bem comerciais, um ‘chicletão’ mesmo, que grudava na cabeça das pessoas”.
Os eventos gigantes eram aqueles que traziam atrações internacionais e as festas temáticas aos domingos. Tinha a noite da espuma, a noite da porca e do parafuso — onde os homens recebiam um parafuso e as mulheres uma porca e, durante a noite, tinham que encontrar qual encaixava com qual. O concurso Garoto e Garota Factory parava a cidade, reunindo uma multidão de jovens para descobrir quem seria o novo rosto do local.
O rock dos anos 80 e 90 em Sorocaba
Enquanto a Factory dominava a cena dance, o rock também tinha seu espaço garantido em Sorocaba. Bandas alternativas e independentes floresceram na cidade. Nos anos 80, surgiu o Vzyadoq Moe, primeira banda do município a ganhar reconhecimento nacional, com um artigo na revista Bizz que declarava: “um som impronunciável para um som impressionante”.
Já nos anos 90, surgiram bandas como Wry e The Biggs, que trouxeram novo fôlego para a cena e colocaram Sorocaba de vez no mapa da música independente brasileira. Muitas dessas bandas se tornaram grandes influências para a geração seguinte de grupos indies, que contava com nomes como Automatic Pilot, The Fortunetellers e Volpina.
Eventos como a 80’s & 90’s Rock Night mantinham viva a chama do rock na cidade. Em fevereiro de 2015, o Rock Suburbia sediou uma noite dedicada às duas décadas, com a banda No ID (trazendo clássicos do rock, grunge e metal dos anos 90) e a banda Puzzle (com o melhor dos anos 80, do pop ao hard rock).
O legado das rádios em Sorocaba
As rádios sempre tiveram um papel fundamental na preservação do flashback em Sorocaba. A Rádio Sorocaba FM 105.9, fundada em 15 de novembro de 2012 pelo produtor musical e radialista Roberto Neander, é dedicada aos sucessos dos anos 70, 80, 90 e 2000, com o objetivo de “resgatar a boa música” do passado utilizando tecnologia moderna.
A ClassFM 80.1, da Rádio Vanguarda, também tem uma linha de programação dedicada ao melhor do flashback internacional e da MPB, voltada para o público adulto-contemporâneo.
E, claro, há a Rádio Web Flash Back ZN, sediada na Zona Norte de Sorocaba, com foco em flashback dos anos 70, 80 e 90, mantendo viva a tradição musical que marcou gerações.
O flashback hoje: nostalgia que não passa
O sentimento nostálgico em relação aos anos 80 e 90 continua forte em Sorocaba. Prova disso são as festas temáticas que reúnem milhares de pessoas para reviver aquela época. Em agosto de 2024, o Villa Plaza Hall promoveu um show com a banda Body Eletric, fazendo três sets especiais: o primeiro com músicas do The Cult e INXS, o segundo com Depeche Mode, e o terceiro com os maiores hits dos anos 80 e 90, incluindo A-ha, Billy Idol, Information Society, The Cure, The Smiths, Soft Cell e U2.
A casa, localizada na Avenida São Bernardo do Campo, 395, se tornou um dos principais pontos de encontro para quem quer reviver a magia do flashback. “Pra quem está cansado das baladas convencionais de São Paulo, vale esta escapada até Sorocaba”, destacou a publicação do Terra.
A jornalista Karen Parada, que viveu intensamente a era Factory, encontrou até o amor em uma dessas festas de recordação. Em fevereiro de 2024, conheceu seu atual namorado, Régis, em um evento nostálgico. “Nosso primeiro contato foi no grupo de WhatsApp da festa, nos conhecemos pessoalmente lá e o resto é história”, conta ela.
Conclusão
A história do flashback em Sorocaba é rica e atravessa gerações. Dos bailes elegantes nos clubes tradicionais da cidade às discotecas dos anos 80, da explosão da Factory Music nos anos 90 às festas temáticas que hoje reúnem milhares de pessoas, a música que marcou época continua viva na memória e no coração dos sorocabanos.
Os clubes como Sorocaba Clube, União Recreativo e Clube Estrada foram os primeiros palcos dessa história. Depois vieram as discotecas como a Zarabatana, que revelou DJs que se tornariam referência nacional. A Factory Music, sem dúvida, marcou uma geração e criou um legado que até hoje é celebrado em festas nostálgicas pela cidade.
E o rock, com bandas como Vzyadoq Moe, Wry, The Biggs e tantas outras, mostrou que Sorocaba também era berço de uma cena alternativa vibrante, que colocou a cidade no mapa da música independente brasileira.
Hoje, as rádios locais mantêm viva essa chama, levando o melhor do flashback para os lares sorocabanos. E as festas temáticas provam que a nostalgia não é apenas lembrança — é algo que se vive, se dança e se celebra, criando novas memórias para quem viveu aquela época e apresentando às novas gerações a música que nunca sai de moda.
Afinal, como bem disse o DJ César Barbosa ao relembrar seus anos na Factory Music: “Às vezes, o pessoal manda para nós que conheceu o marido/esposa em uma de nossas festas. Massageia o nosso ego saber que o nosso trabalho produziu frutos a curto e longo prazo. Somos muito contentes de termos feito parte de uma geração tão incrível”.
🎧 OUÇA O FLASHBACK AGORARádio Fone Music – Preservando a memória musical de Sorocaba e de todo o Brasil.


